coruja

Iyá Mi é a sacralização da figura materna, por isso seu culto é  envolvido por tantos tabus. Seu grande poder se deve ao fato de guardar o segredo da criação. Tudo que é redondo remete ao ventre e, por conseqüência, as Iyá Mi. O poder das grandes mães é expresso entre os orixás por Oxum, Iemanjá e Nanã Buruku, mas o poder de Iyá Mi é manifesto em toda mulher, que, não por acaso, em quase todas as culturas, é considerada tabu.

As denominações de Iyá Mi expressam suas características terríveis e mais perigosas e por essa razão seus nomes nunca devem ser pronunciados; mas quando se disser um de seus nomes, todos devem fazer reverencias especiais para aplacar a ira das Grandes Mães e, principalmente, para afugentar a morte.

As feiticeiras mais temidas entre os yorubás e nos candomblés do Brasil são as Àjé e, para referir-se à elas sem correr nenhum risco, diga apenas Eleyé, Dona do Pássaro. O aspecto mais aterrador das Iyá Mi  é o seu principal nome , com o qual tornou-se conhecida nos terreiros, é Òxòròngà, uma bruxa terrível que se transforma no pássaro de mesmo nome  e rompe a escuridão da noite com seu grito assustador.

As Yiá Mi são as senhoras da vida, mas o corolário fundamental da vida é a morte. Quando devidamente cultuadas, manifestam-se apenas em seu aspecto benfazejo, são o grande ventre que povoa o mundo. Não podem, porém, ser esquecidas; nesse caso lançam todo tipo de maldição e tornam-se senhoras da morte.

O lado bom de Iyá Mi é expresso em divindades de grande fundamento, como Apaoká, a dona da jaqueira, a verdadeira mãe de Oxóssi Dizem que o deus caçador encontrou mel aos pés da jaqueira e em torno  dessa árvore formou-se a cidade de Kêtu.

 

 

O Duplo Aspecto

Ignora-se o verdadeiro nome das àjé e prefere-se chamá-las mais familiarmente ìyàmi òsòròngà ou simplesmente Ìyàmi.

O primeiro aspecto pelo qual são conhecidas é o de mulheres muito velhas, proprietárias de uma cabaça que contém um pássaro. Elas mesmo se transformam em pássaros, organizando reuniões nas matas e dedicando-se a trabalhos maléficos variados.

O segundo aspecto, menos conhecido, é o de divindade decaída, nossa mãe Odù (não confundir com odù de Ifá), que recebe de Olódùmarè quando vem ao mundo, o poder sobre os òrisà, poder simbolizado por, eye, o pássaro. Recebe também uma cabaça, imagem do mundo e repositório de seu poderio. Tendo porém abusado desse poder, Olódùmaè retira-lhe a cabaça e a dá a Òrìsàlá.
É ele quem exercerá o poder, do qual, no entanto, ela conservará o controle.

O poderio de ìyàmi é atribuido a mulheres muito velhas, mas também em certos casos, ele pode pertencer a moças muito jovens que o tenham recebido como herança de sua mãe ou de uma de suas avós. Uma mulher de qualquer idade poderia também adquiri-lo, voluntariamente, ou sem que se saiba, em seguida a um trabalho feito por alguma outra empenhada em fazer proselitismo.

Existem também feiticeiros entre os homens, os osó, pórém seriam menos virulentos e crueis que as àjés.

Ao que se diz ambos são capazes de matar, mas os osó, jamais atacam membros de sua família, enquanto as àjés não hesitam em matar os próprios filhos.

 

As Eleye chegam à terra e pousam sobre sete árvores: orógbó, àjánrèré, ìrókò, oro, ògún bèrèke, arere e opé ségiségi, porém é nesta última que conseguem firmar sua residência. É ai que constroem um quarto, um pátio nos fundo e fazem um montículo de terra no lugar onde se reúnem.
Ao se unirem promovem toda espécie de doenças: 
“... trazem dores de barriga para as crianças.
Trazem doenças para as crianças.
Arrancam os intestinos das pessoas.
Arrancam os pulmões das pessoas.
Bebem o sangue das pessoas.
Dão dores de cabeça aos filhos de um outro.
Dão doenças aos filhos de um outro.
Dão reumatismo aos filhos de um outro.
Dão dores de cabeça, febre, dor de estômago, aos filhos de um outro.
Fazem sair a gravidez do ventre daquela que está grávida.
Trazem para fora o feto daquela que não é estéril.
Não deixam que uma mulher fique grávida.
Aquela que está grávida elas não deixam parir.”   (Verger; 1994:49) 

 Presumimos que as seis primeiras árvores representam cidades onde moravam os babalaôs.
As pessoas perseguidas pela fúria das eleye foram procurar a ajuda do filhos de Orunmilá. Eles sabiam que deveriam chamá-las com uma voz bem triste e entregar o sacrifício sobre o montículo de terra onde se reuniam, eles teriam de chamá-las cantando com uma voz bem triste: 

 “Mãezinha vós conheceis minha voz.
Ìyàmi Òsóròngà, vós conheceis minha voz.
Ìyàmi Òsóròngà, toda coisa que eu disser, 
A folha ogbo disse que vós certamente compreendereis.
Ìyàmi Òsóròngà, vós conheceis minha voz.
Ìyàmi Òsóròngà, a cabaça diz que vós ides agarrar.
Ìyàmi Òsóròngà, vós conheceis minha voz.
Ìyàmi Òsóròngà, a palavra que o rato òkété disse à terra,
a terra certamente  a compreende.
Íyàmi Òsóròngà, vós conheceis minha voz.
Ìyàmi, todas as coisas que eu disser vós fareis.
Ìyàmi Òsóròngà, vós conheceis minha voz.”     (Verger; 1994:50) 

 Quando terminam de cantar todas as Eleye silenciaram, aos filhos de Orunmilá foi dado o poder de curar e ajudar aqueles que são perseguidos por Osoronga. 

“Como as Ìyàmi autorizaram os filhos de Òrúmilà naquele dia, todas as coisas que eles fizerem agirão. 
Mas naquele dia eles chamarão com voz triste o canto indicado,     para que Olorun deixe essas pessoas realizar esta boa tarefa.”  (Verger; 1994:50)

osoronga

1) IYAMI AKÒKO: OXUM
“Oxum, mãe de clareza
Graça clara
Mãe de clareza.
Enfeita seu filho com bronze
Fabrica fortuna na água
Cria crianças no rio.
Brinca com seus braceletes
Colhe e acolhe segredos...
Fêmea força que não se afronta
Fêmea de quem macho foge.
Na água funda se assenta profunda
Na fundura da água que corre.
Oxum do seio cheio
Ora Ieiê, me proteja
És o que tenho –
Me receba”.
(Risério;1996:151)

 

2) IYAMI ALÁKÒKO: OIÁ - IANSÃ
        “Ê ê ê epa, Oiá ô. 
Grande mãe. 
Iá, ô. 
Beleza preta 
No ventre do vento.          
Dona do vento que desgrenha as brenhas 
Dona do vento que despenteia os campos 
Dona de minha cabeça 
Amor de Xangô... 
Toma conta de mim.”  (Risério; 1996:148)

 

 

 3) IYA OGBE: OBÁ
“Obà da sociedade E’léékò
Guardiã da esquerda
Anciã guardiã da sociedade E’léékò
Guardiã da esquerda
Ritual do mistério é entendido por Obà
Anciã guardiã da sociedade E’léékò
Guardiã da esquerda.”(Elbein; 1998: 118)

 

 

4) YÉYÉ OMO EJÁ 

 

“Rainha das águas que vem da casa de Olokum.
Ela usa, no mercado, um vestido de contas.
Ela espera orgulhosamente sentada, diante do rei.
Rainha que vive nas profundezas das águas.
Ela anda à volta da cidade.
Insatisfeita, derruba as pontes.
Ela é proprietária de um fuzil de cobre.
Nossa mãe de seios chorosos”  (Verger;1997:191)

 

 

5) EUÁ: A SENHORA DO ADÔ
“... é ela que domina os cemitérios.
Ali ela entrega a Oiá os cadáveres dos humanos,
Os mortos que Obaluaê conduz a Orixá Ocô
e que Orixá Ocô devora para que voltem novamente à terra, 
à terra de Nanã de que foram um dia feitos.
Ninguém incomoda Euá no cemitério”.(Prandi; 2001: 241)

 

 

6) IYAMI IMÓLE: ODUA – ODUDUA (ODÙ LÓGBÁJE)
Grande Mãe Ancestral, única filha de  Olodumaré e também única  Orixá Funfun. Criadora do  Aiê representa o princípio criador passivo e feminino de Olodumaré, por isso às vezes também é tratada como masculino: O Odudua ou como a parte feminina de Oxalá.
Odua detêm o segredo de toda a criação do  Aiê, por isso é feiticeira, porém abdicou de seu poder soberano sobre a Terra para tornar-se esposa de seu irmão e com ele compartilhar de tal poder.

Enquanto genitora do Aiê tornou-se Ebora, a parte inferior de Igbadu, a cabaça da criação. Possuía uma relação de amor-ódio com seu irmão-esposo Obatalá (Oxalá – princípio criador ativo masculino de
Olodumaré), mas nenhuma vida no mundo material pode existir se as forças de Oduduwa e Olodumaré não forem equilibradas.
Quando pela primeira vez a Terra foi pisada, Odua imprimiu sua marca em Ifé Oòdáiyá ou Ilé Ifé, capital sagrada do povo iorubá.
Saudada como  Iyá Malé e Iyá Imóle, (Mãe dos Orixás), concede longa e próspera vida aqueles que possuem uma cabaça-odú.

 

 

7) OMO ÀTIÒRO OKÈ OFA: NANÃ BURUKU
“Proprietária de um cajado. Salpicada de vermelho, sua roupa parece coberta de  sangue... Água parada que mata de repente. Ela mata uma cabra sem utilizar a faca”.
(Verger; 1997:240)
O título de OMO ÀTIÒRO OKÈ OFA, (filha do poderoso pássaro Atioro da cidade de Ofa), concede a Nanã Buruku a associação com a sociedade Egbe Eleye. 
O culto a Nanã Buruku e seus dois filhos Oxumaré e Omulu vêm do antigo Daomé, hoje Benin. Para as nações Fon e Ewe é sincretizada com Mawu, representando o Princípio Criador Feminino, geradora
de todo panteão de divindades Voduns junto com sua contraparte masculina Lisa.